No debate científico internacional sobre os possíveis destinos da ruralidade no mundo contemporâneo há muito tempo foi desfeito o equívoco de se identificar a agropecuária com o rural, como se alguma vez tivesse havido coincidência entre tal grupo de atividades econômicas e o espaço (físico e social) no qual elas necessariamente mais ocorrem. Além disso, a dinamização de muitas áreas rurais por atividades que pouco ou nada têm a ver com a agropecuária faz com que se discuta intensamente as características e tendências do que tem sido chamado de “nova economia rural”. Nos países mais desenvolvidos chega a ser comum que tal ruralidade seja caracterizada como “pós-industrial”, “pós-moderna” ou “pós-fordista”.
A imensidão territorial do Brasil e a profunda desigualdade de seu desenvolvimento fazem com que abrigue situações rurais extremadas. Se por um lado foi possível preservar nas vastas florestas amazônicas formas de pressão antrópica que mantêm um metabolismo pré-neolítico com a natureza, por outro, várias manifestações de uma economia rural das mais avançadas já ocorrem em algumas áreas de clima temperado do domínio da mata atlântica e, sobretudo, dos campos e florestas meridionais. Não há motivo, portanto, para que o caso brasileiro seja excluído desse crucial debate sobre os possíveis destinos da ruralidade.
Todavia, há pelo menos duas questões que o precedem e lhe são básicas: o que é ruralidade, e como ela deve ser medida. Duas questões que já são suficientemente complicadas para que este artigo a elas se restrinja. Assim, antes de propor uma maneira de avaliar a importância relativa do Brasil rural (seção 3), e chamar a atenção para algumas implicações teórico-históricas do problema (seção 4), este artigo aborda a dicotomia urbano-rural, procurando explicações para a surpreendente inércia dessa maneira de pensar o espaço, e apresentando os principais expedientes alternativos que vêm sendo adotados em outros países (seção 2).